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Mas Freud explica tudo mesmo?

Mas Freud explica tudo mesmo?

Essa expressão popular é usada para situações que a razão não compreende. A Freud cabe dar sentido àquilo que a gente nem sabe o que é, mas sente quando acontece, e não tem ideia de como descrever e como agir.

 


Mas afinal de contas, o que o neurologista austríaco e pai da psicanálise, que hoje, explica, de fato?

``Explica aquela angústia que fica dando nó na garganta? Explica a inveja que sentimos, e o ressentimento que deixamos crescer em nós? Explica nossa dificuldade com o amor? Explica o tumulto de nossas relações? Explica o fracasso das dicas de auto-ajuda? Explica estarmos preocupados? Explica quando não damos a mínima? Explica aquilo que dizemos mas que não queríamos dizer?

Não, Freud não explica. Não da maneira que esperamos. Seria muita pretensão, e a psicanálise que ele concebeu possui, já em sua constituição, um atestado de que não se pode tudo, não se é tudo, não se tem tudo.

Mas ele fez perguntas, ouviu histórias, prestou atenção em detalhes e desenvolveu uma escuta singular que permite que os pacientes ouçam aquilo que eles mesmos dizem, e com isso vai costurando sentido a partir das palavras e da maneira como as pessoas se colocam no mundo. Ele nos leva a descobrir respostas.

O inventor da psicanálise tentou fundar o inconsciente estendendo o princípio de razão, segundo o qual nada é sem razão, a fenômenos  que escapavam à racionalidade científica da época, notadamente o sintoma histérico, cujo valor de verdade Freud denunciou.

Existe diferença entre explicar e interpretar.

A interpretação está na base de tudo, é o sentido que parece se ocultar num segredo, que desvendado faz o sujeito avançar no conhecimento sobre si. Outras vezes, interpretar significa favorecer a ligação entre pontos aparentemente desconexos, possibilitando a emergência de novos sentidos e novas percepções.

Interpretar também pode ser entendido como contar, narrar e expor. São referências para o mundo da ficção literária e do teatro, referências que lidam com dar vida aos personagens, exibir certas questões ou mesmo contar histórias que não devem ser esquecidas.

Interpretar significa promover sentido e saber singular.

Ao analista resta levar em consideração o que emerge. Trata-se mais de penetrar as entranhas que dão suporte às visões que temos de homem e mundo e menos, muito menos, de procurar explicações sobre como se formam tais pensamentos e afetos.

 Cada descoberta leva a quebra da rotina psíquica, cria uma pequena crise e leva ao aumento de patrimônio sobre nós mesmos.

Assim, da próxima vez que alguém lhe disser: ``Freud explica``, replique dizendo:

 ``Não, de jeito nenhum, Freud interpreta!`` - E largue o microfone no chão! 



 

 

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